Alienação e pecado

Paul Tillich em seu texto “As marcas da alienação do ser humano e o conceito de pecado“, fala sobre o estado em que o ser humano se encontra, logo no primeiro parágrafo, ele nos mostra que o estado da existência é o estado de alienação, ou seja, separado da essência. No trecho em que o autor aborda sobre a transição da essência à existência resultando em culpa pessoal e em tragédia, podemos fazer um paralelo com o que Santo Agostinho diz no livro dois, capítulo um de suas confissões quando ele diz: “Concentro-me, livre da dispersão em que me dissipei e me reduzi ao nada, afastando-me de vossa unidade para inúmeras bagatelas.”, podemos ver claramente sua descrição de reconhecimento do estado de pecador estando longe da essência resultando em culpa pessoal, todavia, uma tragédia.

Mais adiante, Tillich diz que o ser humano, da maneira que existe, não é aquilo que é em sua essência e o que deveria ser, ele está alienado de seu verdadeiro ser, pois estamos separados do que pertencemos essencialmente e por mais hostil que sejamos, não podemos nos separar completamente de nosso ser, algo só é possível de ser entendido oposto a outro, por exemplo a essência da existência, o amor e o ódio, e é nesse sentido que Tillich se refere a Deus como prova de que pertencemos a Ele.

Continuando, o autor nos mostra através de alguns exemplos bíblicos que mesmo a alienação não sendo um termo contido nas escrituras, ela é implícita em diversas passagens que sujeitam o ser humano a depravação, hostilidade, contendas, ódio, idolatria, etc. Um exemplo é quando o apóstolo Paulo diz “miserável homem que sou, o bem que quero fazer não faço, mas o mal que não desejo, esse eu o faço”, nesse reconhecimento do apóstolo de seu estado, fica claro que Deus por ser infinitamente bom, é o oposto de qualquer mal feito pelo homem, logo alienação nossa nos distancia dessa essência divina.

“Alienação” não pode substituir “pecado”, é o que diz Tillich, pecado tem sido empregado de uma forma que quase não tem nada a ver com o sentido bíblico genuíno, Paulo por exemplo cita pecado no singular e sem artigo, pois da forma como as igrejas referem-se a pecado, é algo relacionado a desvios e transgressões de leis morais e não com o “pecado” como estado de alienação em relação à Deus, nossa essência.

Não é possível dispensar a palavra “pecado”, pois ela expressa muito mais do que “alienação” consegue. O pecado expressa a liberdade e a culpa pessoal e alienação expressa a culpa trágica e destino universal, não se trata de um estado de coisas, como o expressam as leis da natureza, mas sim tanto de liberdade pessoal quanto de destino universal.

Tillich aponta que é preciso reinterpretar religiosamente o termo pecado e para isso temos o termo “alienação” para nos ajudar. No parágrafo seguinte, ele fala sobre os termos “original” e “hereditário” referidos ao pecado e que para reinterpretá-los, seria necessário rejeitar esses termos, pois ambos apontam para o caráter universal da alienação, eles expressam o elemento de destino da mesma e por serem carregadas de absurdos literais é praticamente impossível continuar usando-as.

E para finalizar seus argumentos, ele diz que ao referir-se a “pecados” como atos específicos, deveríamos estar conscientes de que os “pecados” são expressões do “pecado”, pois não é a desobediência à lei que torna um ato pecaminoso, mas o fato de o ser humano estar separado de Deus, do próprio ser humano e de si mesmo. Ele também mostra que Paulo chama de pecado o que não vem da fé da unidade com Deus. Todas as leis são resumidas na lei do amor que vence a alienação, o amor reuni aquilo que está separado, ele é o oposto de alienação. Pela fé o pecado é vencido pelo amor, a alienação pela reunião.

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