Categoria - Teologia Sistemática

A ressurreição de Cristo

O texto abaixo é uma síntese sobre a ressurreição de Jesus Cristo feita a partir do livro de Teologia Sistemática de Alister McGrath. O conteúdo não é referente a minha opinião pessoal a respeito desse assunto.

A ressurreição de Jesus Cristo

A ressurreição de Cristo é motivo de questões teológicas, onde se diz que Cristo tenha ressucitado dos mortos, sendo como componentes centrais da crítica Iluminista em relação ao cristianismo tradicional.

O Iluminismo: A ressurreição como algo que não aconteceu

No Iluminismo, onde a razão e a experiência vivida atualmente, semelhante a acontecimentos do passado é que devem ser levados em conta para explicar a ressurreição de Cristo. Em vista que hoje em dia não vemos acontecimentos de ressurreição, não há como crer nisso com reflexões racionais, pois necessita apenas da fé e aceitar a autoridade de outros.

Para Lessing, ser forçado a aceitar o testemunho alheio equivaleria a comprometer a autonomia intelectual do ser humano. Portanto a ressurreição não aconteceu.

A ressurreição como mito – David Friedrich Strauss

Strauss em sua abordagem sobre a ressurreição parte do pressuposto do Iluminismo de que milagres são impossíveis, ele apresenta suas ideias sobre esta perspectiva na intenção de explicar a origem da fé na ressurreição de Cristo de forma absolutamente independente de algum milagre.

A crença na ressurreição é algo subjetivamente concebido pela mente, a fé nela decorre da “recordação exarcebida da personalidade do próprio Jesus”, por meio da qual houve uma projeção da memória, levando a ideia de uma presença viva. De acordo com Strauss, Cristo é um ressurreto mítico.

Segundo Strauss, os evangelistas deveriam ser encarados como pessoas que compartilhavam da visão mítica que dominava o contexto cultural em que estavam inseridos, essa linguagem mítica era parte natural de expressão daquelas pessoas que tinham uma visão de mundo fundamentada em mitos.

A ressurreição como evento na experiência dos discípulos – Rudolf Bultmann

Bultmann assim como Strauss, também acreditava que milagres eram algo impossíveis de se acreditar, logo a ressurreição de Cristo como um fato objetivo não era possível.

A ressurreição não pode ser levada a sério nos dias atuais, onde por termos a ciência e a razão como base de nossas vidas, acreditar num mundo de milagres e espíritos é algo descartado e initeligível. A ressurreição deveria ser considerada como um mito que passou na experiência subjetiva dos discípulos e não como um fato ocorrido na história. Para ele, a ressurreição havia de fato acontecido, porém no sentido de proclamar as Boas Novas.

A ressurreição como fato histórico além da investigação crítica – Karl Barth

Segundo Karl Barth, a ressurreição de Cristo não deve ser interpretada apenas como um evento histórico e analisada de forma crítica quanto ao seu acontecimento, como crê Bulltmann. Para Barth, a ressurreição deve ser encarada a luz da fé, pois não existem meios de pesquisa que comprovem se realmente ocorreu ou não.

Barth destaca que Paulo e os demais apóstolos não exigem a “aceitação de um relato histórico inteiramente comprovado”, mas sim a “decisão de fé”.

A ressurreição como fato histórico aberto à investigação crítica – Wolfhart Pannenberg

Pannenberg utiliza de fundamentos da história universal para obter respostas da teologia. Para ele, a revelação é essencialmente um fato histórico público e universal, reconhecido e interpretado como um “ato de Deus”, o que gerou críticas pois isso parece reduzir a fé ao discernimento, negando qualquer participação do Espírito Santo no evento da revelação.

A história, segundo Pannenberg somente pode ser compreendida quando vista a partir de seu ponto final, pois a partir desse ponto o processo histórico pode ser visto por inteiro, toda a chave de interpretação histórica está em Jesus Cristo, que nos revela o fim da história antecipadamente.

Ao contrário de Bulltmann, Pannenberg defendia a ressurreição de de Cristo como fato histórico objetivo, testemunhado por todos que tiveram acesso à evidência,  sendo um fato da história universal.

A proposição de que “Jesus não ressuscitou dos mortos” será um pressuposto dessa investigação e não a conclusão. As evidências históricas que apontavam para a ressurreição de Jesus deveriam ser investigadas de forma insenta, sem se deixar contaminar pelo pressuposto dogmático apriorístico de que era impossível que a ressurreição tivesse ocorrido.

Para ele, a ressurreição de Jesus antecipa a ressurreição universal que ocorrerá no fim dos tempos, a ressurreição de Jesus está ligada à auto-revelação de Deus em Cristo, ela define a identidade de Jesus em Deus e permite que essa identidade seja projetada no ministério que Jesus desenvolveu antes da ressurreição.

A ressurreição e a esperança cristã

Um dos papéis principais da ressurreição diz respeito à afirmação da divindade de Cristo. A ressurreição define e sustenta a esperança cristã, em relação a soteriologia e escatologia, dando interpretações de como a cruz representa a vitória de Deus sobre a morte e esperança cristã da vida eterna.

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Síntese escrita a partir do texto “A ressurreição de Cristo” do livro Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica de Alister E. McGrath.

Alienação e pecado

Paul Tillich em seu texto “As marcas da alienação do ser humano e o conceito de pecado“, fala sobre o estado em que o ser humano se encontra, logo no primeiro parágrafo, ele nos mostra que o estado da existência é o estado de alienação, ou seja, separado da essência. No trecho em que o autor aborda sobre a transição da essência à existência resultando em culpa pessoal e em tragédia, podemos fazer um paralelo com o que Santo Agostinho diz no livro dois, capítulo um de suas confissões quando ele diz: “Concentro-me, livre da dispersão em que me dissipei e me reduzi ao nada, afastando-me de vossa unidade para inúmeras bagatelas.”, podemos ver claramente sua descrição de reconhecimento do estado de pecador estando longe da essência resultando em culpa pessoal, todavia, uma tragédia.

Mais adiante, Tillich diz que o ser humano, da maneira que existe, não é aquilo que é em sua essência e o que deveria ser, ele está alienado de seu verdadeiro ser, pois estamos separados do que pertencemos essencialmente e por mais hostil que sejamos, não podemos nos separar completamente de nosso ser, algo só é possível de ser entendido oposto a outro, por exemplo a essência da existência, o amor e o ódio, e é nesse sentido que Tillich se refere a Deus como prova de que pertencemos a Ele.

Continuando, o autor nos mostra através de alguns exemplos bíblicos que mesmo a alienação não sendo um termo contido nas escrituras, ela é implícita em diversas passagens que sujeitam o ser humano a depravação, hostilidade, contendas, ódio, idolatria, etc. Um exemplo é quando o apóstolo Paulo diz “miserável homem que sou, o bem que quero fazer não faço, mas o mal que não desejo, esse eu o faço”, nesse reconhecimento do apóstolo de seu estado, fica claro que Deus por ser infinitamente bom, é o oposto de qualquer mal feito pelo homem, logo alienação nossa nos distancia dessa essência divina.

“Alienação” não pode substituir “pecado”, é o que diz Tillich, pecado tem sido empregado de uma forma que quase não tem nada a ver com o sentido bíblico genuíno, Paulo por exemplo cita pecado no singular e sem artigo, pois da forma como as igrejas referem-se a pecado, é algo relacionado a desvios e transgressões de leis morais e não com o “pecado” como estado de alienação em relação à Deus, nossa essência.

Não é possível dispensar a palavra “pecado”, pois ela expressa muito mais do que “alienação” consegue. O pecado expressa a liberdade e a culpa pessoal e alienação expressa a culpa trágica e destino universal, não se trata de um estado de coisas, como o expressam as leis da natureza, mas sim tanto de liberdade pessoal quanto de destino universal.

Tillich aponta que é preciso reinterpretar religiosamente o termo pecado e para isso temos o termo “alienação” para nos ajudar. No parágrafo seguinte, ele fala sobre os termos “original” e “hereditário” referidos ao pecado e que para reinterpretá-los, seria necessário rejeitar esses termos, pois ambos apontam para o caráter universal da alienação, eles expressam o elemento de destino da mesma e por serem carregadas de absurdos literais é praticamente impossível continuar usando-as.

E para finalizar seus argumentos, ele diz que ao referir-se a “pecados” como atos específicos, deveríamos estar conscientes de que os “pecados” são expressões do “pecado”, pois não é a desobediência à lei que torna um ato pecaminoso, mas o fato de o ser humano estar separado de Deus, do próprio ser humano e de si mesmo. Ele também mostra que Paulo chama de pecado o que não vem da fé da unidade com Deus. Todas as leis são resumidas na lei do amor que vence a alienação, o amor reuni aquilo que está separado, ele é o oposto de alienação. Pela fé o pecado é vencido pelo amor, a alienação pela reunião.

Um Deus pessoal

Há muito tempo teólogos e cristãos citam Deus em termos pessoais, sendo esse Deus de amor, fidelidade e propósitos, que indicam associações pessoais. A própria oração é uma maneira de nos relacionarmos com Deus, assim como uma criança conversa com o pai.

Paulo em suas metáforas soteriológicas refere-se a “reconciliação” claramente como um modelo de relação humana, totalmente por intermédio da fé, em um relacionamento entre Deus e o homem.

Porém a ideia de um “Deus pessoal” que já é parte da perspectiva cristã, levanta algumas dificuldades que necessitam ser analisadas. Leia Mais